segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Os pombos

     Abri as janelas da sala para poder fazer o vento entrar e reanimar aqueles rostos sentados.Estamos em setembro.Os dias se alternam entre o frio e o mais frio,mas o Sol ainda reinava absoluto entre os arranha-céus.Havia pombos do lado de fora.Parei alguns minutos a observá-los.Minhas mãos geladas tentavam se consolar enquanto o tédio imperativo e hiperativo nos ocupava a mente.Foi anteontem.
     Os pombos ainda me chamavam a atenção.Sempre me havia intrigado o fato dos pombos poderem voar tão alto...Admirava sua elegância suja,o seu poder de ser indiferente a tanta pressa e descrença.
     Se espalhavam por todos os lugares,desde as pracinhas vazias do subúrbio até o topo dos prédios comerciais.Quase onipresentes.Mas havia uma dúvida que não me saía da memória...Uma dúvida que me fazia refletir perante minhas gélidas mãos:"Por que eles ainda insistem em catar as migalhas no chão?"
     Passei mais alguns minutos a imaginar o porquê de tamanha mediocridade.Talvez houvesse necessidade...Talvez não...Se definia em uma existência paradoxal,na qual haviam de conviver diariamente com seus próprios contrastes.
     Vagarosamente,voltei meus pensamentos à sala...às janelas abertas.Minhas mãos já não estavam tão frias,e só então fui perceber novamente a apatia naqueles rostos.Havia pombos dentro da sala.

Niterói,13 de setembro de 2010,Gabriel Nery Inchausp.

18 comentários:

  1. Boa sacada , poderia ter desenvolvido mais o aspecto social. Conseguiu "ver" , mas "não enxergou"

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  2. Nossa, adorei. Super poético! :D

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  3. um texto recheado de indiretas e verdades sobre a hipocrisia burgesa atual. Uma parte da sociedade que faz com que as relações humanas fiquem podres é a burguesia. Nada contra essa classe, pois o Brasil precisa dela, Nós precisamos e o contexto atual tambem. O que nao precisamos é da moral que ela defende de forma hipócrita fantasiada de pombos.

    matheus jaccoud

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  4. Ficou muito bom, parabéns.

    Éric Bezerra

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  5. ééé rapaz! pelo menos os pombos são irracionais! hehehe

    Marina Inchausp

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  6. "Elegância suja".. é realmente uma ótima definição para pombos xD

    e adorei o texto, a propósito! muito bom mesmo ^^

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  7. E eis que Gabriel vai trocando as melodias por frases e versos, ficou excelente... quanto as mãos geladas ponha uma luva meu filho XD!


    Walter Lima

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  8. Muito bem feito (critativo e muito bem inspirado) e escrito (sem erros gramaticais ou coesivos. Recheado de conteúdo e visões particulares. Realmente, gostei.

    Greggy

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  9. Boa cara! Acho essencial abordar esse ponto da futilidade e falta de objetividade das relações humanas

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  10. Pombos são realmente criaturas que causam no mínimo intriga. Como você mesmo disse donos de uma elegância suja estão em qualquer lugar. Alguns gostam de alimentá-los, outros espantá-los, os mais encucados os temem pois por trás dessa elegância, sua sujeira acaba transmitindo doenças, ... mas e aí o que pensar sobre eles??
    Sem mais delongas, muito bom o texto! ;)
    =**

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  11. Olá meu camarada!!!!

    Que coisa linda, isso que escreveu!!!

    Mas, na minha visão, não existe mediocridade em se
    refestelar com as migalhas espalhadas pelos caminhos,
    até porque, quantos dariam tudo para ter a oportunidade
    das migalhas de um amor, de um suspiro ou de uma visão
    mais ampla de quantas vidas, que se pode ter.

    Parabéns, lindo post!!!

    Um grande beijo no seu coração amigão e fique com Deus.

    Beto.

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  12. Caro, seus pombos são ótimos. Percebo o início da maturidade na escrita de um cara que se via apenas como músico e poeta da música. Pois é, a literatura é maior que tudo e está, também, fora da canção. Nosso amigo Greggy destacou a ausência de erros gramaticais ou coesivos. Foi interessante ver vocês, que eu acompanhei há tão pouco tempo nos bancos da escola, falarem com tanta propriedade sobre o ato de escrever. Dá a sensação de que tudo vale a pena. Mas serei forçada a discordar dele e apontar um pequeno errinho de regência que, imagine, eu também cometi, igualzinho, num texto do jornal da faculdade, lá no paleolítico, e acho que ninguém percebeu, e se perceberam, não tiveram coragem de me mostrar. Trata-se do objeto direto em "a lhes observar", que você toma como indireto. O correto é "a observá-los". Sei que o erro pode ser o acerto do estilo e a conotação está aí pra isso. Mas você entende muito bem que isso é apropriado apenas quando é uma escolha estilística ou de verossimilhança. Não é o caso do seu texto, que se apresenta com apuro formal e linguagem sofisticada.
    Quanto ao conteúdo, percebo sua tendência à filosofia e às percepções subjetivas do real objetivo, interpretando-o através de um filtro pessoal que possibilita imagens delicadas e elegantes (mãos que se consolam e elegância suja dos pombos). Tome cuidado para não botar tudo a perder com construções frasais perigosamente próximas do sentimentalismo que, decididamente, não é, nesse momento, seu caminho estilístico. Por exemplo, a construção "refletir perante minhas gélidas mãos" e aquele "o porquê de tamanha mediocridade" mereciam um tratamento de simplicidade mais delicada. Porém, é apenas uma opinião...
    Obviamente, não poderia deixar de mencionar aquela verdade que me parece a cada dia mais irrefutável: o texto e seus sentidos são do leitor. Basta ler os comentários do Rodrigo e do Jacoud para constatar. Não há em lugar algum a referência à venalidade da burguesia e a autorização do discurso marxista adolescente dos cientistas sociais imberbes. Eles viram a si mesmos no texto, o que não é ruim, aliás, é ótimo, porque o texto é do leitor. Houve uma identificação imediata pois é isso que esses rapazes inteligentes e comprometidos querem ler. Se você dá ao leitor o que ele quer, sem se violentar ou seguir cegamente suas deliberações, muito bem, está no caminho certo.
    No mais, só posso dizer que me orgulho de participar desse momento tão importante da sua vida. Desejo o que você merece: amigos, amor, sensibilidade, disciplina, determinação e coragem pra ser feliz apesar do mundo inteiro.
    Beijão.

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  13. Nossa, adorei o texto.
    Acho que gostei principalmente por ele me surpreendeu, e de uma maneira muito positiva obviamente.
    A começar pelo titulo "Os pombos". sou daquelas que detesta pombos e a praga urbana que eles são. mas o seu texto traz uma abordagem muito diferente da que eu esperava inicialmente.
    gostei bastante das criticas sutis a sociedade e ao comportamento humano.
    Parabéns pelo texto e sucesso!

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  14. Interessante sua percepção... Me pareceu, sobretudo, uma metáfora a nós mesmos.Uma existência paradoxal mais humana do que qualquer outra coisa. E ainda me levantou uma reflexão:
    Como será que nossa existência é percebida por esses seres?
    Segue esse questionamento pra você.
    abração do leozinho

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  15. O tema abordado foi muito interessante porque como Marcela disse, ele pode ter sua própria interpretação. Cada pessoa se "mostra" de verdade ao ler esse texto e tira suas próprias conclusões. Pombos pra mim sempre foram coisas nojentas (você me conhece e sou meio fresca hahaha), mas nunca tinha pensado neles de uma forma diferente e você me fez pensar nisso e tenho certeza de que cada pessoa que leu isso ficou pensativa após um momento.
    Gostei muuuuuuito do texto, sabe que sou e sempre serei sua fã número um em musica, texto ou qualquer outra coisa que decidir fazer. Sempre estarei aqui.
    Beijos Fafu :*

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  16. Percepção muito interessante mesmo, e destaque para a forma como descreve a situação, o ambiente... Muito legal mesmo

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